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Entrevista da Autora do Livro "Como educar meu filho e torná-lo independente" - Carla Cruz - para o Jornal "Hoje em dia"

Como psicóloga vc deve saber que o Freud dizia que educar é impossível. Concorda com ele?
 
Parafrasiando  Marcia Neder Bacha neste contexto existe um grande mal-entendido Freud disse certa vez que existem três profissões "impossíveis": psicanalisar, governar e educar. Como toda frase de efeito, esta também se destinava a provocar surpresa e a fazer refletir. No caso, a "impossibilidade" diz respeito ao fato de os seres humanos serem dotados de liberdade e de iniciativa, razão pela qual jamais se submeterão por completo à autoridade e sempre se sairão com alguma iniciativa que o detentor daquela autoridade não havia previsto. Assim, a frase advertia contra as pretensões abusivas do educador, do governante e do psicanalista que, viessem a se acreditar onipotentes e capazes de moldar o outro à sua imagem e semelhança.
 
Parece que seu livro "Como educar meu filho e torná-lo independente" fala de uma área específica da educação - se é que existem áreas na educação. É isso mesmo?
 
Os leitores do livro perceberão que o mesmo trata da chamada Autonomia doméstica Infantil, que podemos considerar como sinônimo de "pequena maturidade".
 
 
De onde surgiu a idéia de escrever esse livro?
 
A idéia de escrever este livro surgiu em 2002 em conversa com um casal de pais de uma garotinha de 8 anos de idade que vinham ao meu consultório. A escola dela oferecia um curso extraclasse de Autonomia Doméstica para crianças. Interessei-me muito pelo assunto, pois se tratava de uma extensão dos programas de psicologia do desenvolvimento que me ajudavam a  trabalhar com crianças na clínica.
 
 
Quando as crianças começam a andar e entram naquela fase das descobertas, há, pelo menos, dois tipos de mães: uma que tira tudo do alcance das crianças, coloca tudo no alto, e outra que prefere manter tudo no lugar e correr atrás do filho(a) tirando objetos das mãozinhas e explicando que não pode mexer. Quem está certo?
 
A primeira infância é, sem dúvida, riquíssima e deve ser estimulada de todos os modos possíveis. falar, contar histórias, conversar, brincar, correr, ler para os filhos, possibilitar estimulações variadas, participar são attitudes que educam a criança, levando-a a desenvolver uma mente ativa, um corpo saudável e um estado emocional de equilíbrio. Este é o critério nestas situações além de garantir a segurança física das crianças.
 
A criança aprende tudo que lhe ensinam? Ou melhor: toda criança aprende? Quando a gente se depara com aqueles meninos grosseiros que chutam as visitas podemos pensar que eles não foram bem-educados?
 
Muitas crianças e adolescentes mal-educados estão tomando Ritalina, medicamento que se destina ao tratamento do distúrbio do déficit de atenção (DDA). Tanto o portador de DDA, como o mal-educado são irritáveis por falta de capacidade de esperar. A espera é um exercício. São impulsivos por falta de capacidade de se controlar. Estão sempre tentando fazer coisas. São também agressivos. Em vez de reagir adequadamente, é mais fácil liberar agressão, um dos primeiros mecanismos de defesa do ser humano. Ambos são instáveis. Ora estão bem, ora estão mal.
 
Como todos os pais desejam que os filhos cresçam com autoconfiança, que sejam bem educadas, virtuosas (por que não?), sadias e com uma boa perspectiva de vida.
 
Sugiro que os pais aproveitem  todas as oportunidades de estarem em companhia de seus filhos e empenhem energia na formação educacional de seus filhos. Não estou referindo-me à educação formal, mas aos valores como caráter, autoconfiança, atitudes e outros. Não conheço nenhum pai que não queira o melhor para seus filhos. Então, mão à obra!
 
 
E as babás? Como confiar nelas? A gente já viu histórias horríveis.
 
A criação de uma criança não é influenciada apenas pelas mensagens que ela recebe dos pais e familiares, mas também das pessoas a quem se confiam os filhos: as babás. Logo, quando avaliar uma candidata ao cargo de babá, procurem averiguar a lista de referências apresentada por ela. Coloquem situações, busquem indícios de que a babá atenderá suas expectativas e observem como as respostas são emitidas. A observação constante é sua melhor aliada. Um período de adaptação também é a melhor opção. Nesse início, não deixem a criança sozinha com a babá por muito tempo. Conversem sobre a nova babá com a criança. Observem se ela está feliz. Crianças dificilmente camuflam sentimentos. Se algo estiver errado, logo sera percebido no comportamento da criança, mesmo que ela ainda não emita palavras.
 
 
Um capítulo me chamou especialmente atenção no seu livro: "Monitorando as amizades do seu filho". Fale sobre ele.
 
Um dos motives pelos quais se destaca a importância de formar os valores dos filhos desde cedo é que, mesmo antes de irem para a escola ou para outro grupo social além da família e estarem expostos às influências externas, os filhos já terão um sistema de valor moral condizente com suas expectativas de pais. E como as crianças dão muito valor a seus amigos, é importante procurarmos conhecer o tipo de influência desses novos coleguinhas.
 
 
É póssível educar os filhos pequenos sobre o uso do computador? É possível fiscalizar pra saber com quem estão se relacionando na internet?
 
Culpado ou inocente, o computador já faz parted a vida de todos. Melhor que discutir se o mundo das crianças deve ou não ter computador, até porque ele já tem, é saber como usá-lo a seu favor. Deixar o micro na sala, por exemplo, democratiza seu uso e é umamaneira fácil de controlar o que o filho está acessando ou que atividade está desenvolvendo.
 
 
A partir de quando a criança precisa aprender o valor do dinheiro e como lidar com ele?
 
Mesmo ainda criança, os filhos são capazes de compreender o valor do dinheiro e a importância de se economizar. Inicialmente, pode-se recorrer às atividades lúdicas. A partir dos quatro anos, as crianças já são capazes de perceber muitos detalhes do comércio. Já podem até ser responsáveis por seus próprios cofrinhos. Com ele a criança poderá não só armazenar suas moedas e notas, como também já poderá aprender que pode planejar um gasto a longo prazo.
 
 
A quem se destina seu livro? Em quem vc pensava enquanto o escrevia?
 
Sem qualquer objetivo pedagógico direto, mas certamente na perspectiva de uma influência clara sobre as fases de adaptação social e afetiva da criança, propus um trabalho calcado na perspectiva da relação afetiva entre filhos e pais, a quem se destina este livro, na medida em que essa relação está diretamente associada à aquisição de autonomia e espontaneidade da criança.
 
 
Sempre que se fala em regras, em dicas, normas, fico pensando: é possível mesmo segui-las e respeitar a individualidade das pessoas?
 
Parti do pressuposto teórico de que os primeiros anos de vida são transcedentais para a evolução da criança como pessoa autônoma, criativa e socializada. Logo, as dicas que ofereço em meu livro levam em consideração o respeito à individualidade. Não valorizo as imposições.
 
 
Nesta época de violência, como criar filhos que sejam indepentes, corajosos e cautelosos na medida certa?
 
Como as crianças se vêem pelos olhos dos adultos em quem confiam, as oportunidades de criar momentos positivos e significativos com elas não podem ser perdidas, pois, de acordo com a maturidade de seu filho, diversas atividades e “brincadeiras” podem ser planejadas para a educação e o desenvolvimento  da autoconfiança dele.
 
Isso não significa deixar as crianças desprotegidas, à mercê dos perigos de uma casa e posteriormente do mundo. Assim, mais do que as escolas tentam ensinar, está nas mãos dos pais a tarefa de preparar os filhos para uma “pequena maturidade”: Lidar com estranhos; Lidar com dinheiro; Evitar choques elétricos; Relacionar com empregados e babás; Relacionar com outras crianças; Proteger o próprio corpo; Evitar intoxicações; Lidar com a própria sexualidade, dentre outros.
 
 
No quesito alimentação, a impressão que a gente tem é de que algumas crianças já nascem gulosas, outras inapetentes. É verdade isso? É possível mudar isso?
 
É possível mudar. Precisamos levar em consideração dois pressupostos. Um: a apresentação dos alimentos na infância é muito importante. Então, sejamos criativos. E dois: as crianças copiam os modelos alimentares dos pais e de pessoas que admiram. Logo, se a família tem bons hábitos, a criança os incorpora com o passar do tempo. Quando ela rejeita o alimento, por exemplo, o melhor é não insistir, mas sim dar exemplos. 
 
 
 

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