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Estas concepções religiosas infiltram, sem que percebamos, a visão racionalista da doença e da saúde como transtornos exclusivamente corporais veiculada pela Medicina, especialmente pela mediação da crença em milagres – hoje não mais os de Lourdes ou Fátima, mas a crença na possibilidade de remover cito, tuto et jucundei o sofrimento mental pela via dos anti-depressivos, ansiolíticos et caterva. É o caminho dos diversos DSM e da propaganda dos laboratórios, que se serve de fatos científicos relevantes - como a descoberta dos neurotransmissores, ou a provável localização em certas áreas cerebrais da base física para determinados transtornos psíquicos - para extrair conclusões ideológicas que alimentam a ilusão contemporânea por excelência: a de que o sujeito não é mais agente e foco originador dos seus atos, portanto responsável por eles, mas na essência consumidor do que a indústria lhe apresenta. E quanto menos perguntas, melhor! Consome e goza, tal parece ser a paupérrima versão contemporânea do imperativo categórico.
 Um outro aspecto importante deste pequeno grande livro é a relação de continuidade que estabelece entre Freud e seus sucessores. Ao mesmo tempo em que explica claramente no que são diferentes, Girola mantém firmemente em mãos os diversos fios que unem entre si as teorias que nos apresenta –  de filiação, é claro, mas também de diálogo. Pois, se é necessário que para se constituírem em tendências no campo psicanalítico essas teorias sejam não coincidam completamente umas com as outras, para que constituam tendências no campo psicanalítico elas precisam ter algo em comum entre si, e diferente do “não-psicanalítico”. E, avançando na leitura, compreendemos no que consistem estes fatores comuns: as noções de inconsciente dinâmico e da necessidade de erigir defesas contra impulsos e angústias – o que situa no âmago de todas elas a idéia de um conflito psíquico inescapável -; uma visão no essencial compartilhada sobre o que é e como trabalha a mente humana; uma postura ética assentada sobre a neutralidade e a renúncia à pretensão de ser, como diz Freud no final do O Ego e o Id, o guru do paciente; a atenção às modalidades da transferência e o uso característico da interpretação que daí decorre. O breve estudo da noção de self em Jung (p. 131 ss), por contraste, nos mostra como fica diferente a paisagem quando atravessamos a ponte e saímos da Psicanálise.
 Para concluir, uma menção à bibliografia de que se serve Girola. Ela vai agilmente dos clássicos ao atual, de Susan Isaacs a Laplanche e Pontalis, de Kohut a Nicole Zaltzman, de Santa Teresa de Lisieux a um artigo da revista Veja. O leitor é assim apresentado a alguns dos principais comentadores psicanalíticos, aprendendo com eles a ler os escritos fundamentais e a discernir toda a sua riqueza. Não é pouco, nestes dias de espessa ignorância em que o trabalho de entender é considerado inútil ou cansativo, porque seu ritmo não é do clipe de televisão, e sim o da paciente travessia de argumentos por vezes complexos.
 “Três em um”: vem-me à mente a canção infantil Teresinha de Jesus (ah, penso, Teologia, Santa Teresa, Universidade Laterana... como o processo primário interfere na atividade “secundarizada” de escrever uma resenha!). Teresinha foi ao chão; acudiram três cavaleiros, e o terceiro “foi aquele a quem ela deu a mão”. Nós, leitores, somos como Teresinha, e Girola nos oferece a mão – uma mão amiga, que nos conduz com amabilidade neste passeio ao território sempre interessante da Psicanálise.
Decididamente, três em um!

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