5-) Como vê, mais especificamente, esta interrelação entre psicologia e espiritualidade?
Grün — A psicologia tem, por um lado, uma função crítica. Ela mostra também quais formas de espiritualidade nos fazem adoecer e nos levar a sermos doentes. Por exemplo, como as auto-acusações e escrupulosidades são sinais de substituição, por eu não ter coragem de olhar a minha verdade. Por isso, eu me culpo e me rebaixo totalmente. Mas essas auto-acusações são um meio de eu me esquivar em olhar a minha vida colocada diante de Deus do jeito como ela realmente é. Nesse ponto a psicologia nos ajuda a conhecer melhor os mecanismos que estão por trás dessa escrupulosidade ou atrás de auto-acusações desse tipo.
Nem todas as formas de piedade são curativas; sempre que a gente se separa da realidade, recusa-se a olhar a própria realidade. Isso diminui a vitalidade; isso divide interiormente, e essas divisões interiores sempre nos deixam doentes.
A psicologia moderna nos ajuda a não julgar tanto, e isso vale também na experiência da fé. Conheço muitos cristãos que dizem a respeito do medo: "Eu não posso ter medo, e devo confiar". A psicologia nos diz: as coisas são como são, e têm direito de ser assim. E, assim, eu tento oferecer a Deus os meus sentimentos, as minhas paixões, a minha sexualidade, e conversar com Deus sobre tudo isso.
A minha espiritualidade não precisa copiar a psicologia, pois ela tem seus métodos próprios; mas a psicologia nos dá critérios importantes para vermos se os métodos da espiritualidade são curativos ou se eles só nos causam um estresse espiritual; levam-nos a tentar fazer tudo certinho, mesmo rangendo os dentes, e ser somente perfeitos.
C. G Jung fala de "lados sombrios". Quer dizer com isso que quando alguém se acha muito piedoso com toda certeza tem também um lado impiedoso ou nada piedoso. Quando alguém pensa que só ama, tem com certeza também um lado agressivo. Encontro muitas vezes pessoas que são somente eufóricas e se recusam a olhar a sua verdade inteira.
Por isso, para mim, a psicologia é tão importante para que se possa olhar a verdade inteira. Não tanto para trabalhá-la psicologicamente, mas para ajudar a oferecer essa realidade a Deus. E então sim, para fazer na oração a experiência de uma transformação da minha realidade.
6-) No seu livro “Bento de Núrsia”, pela Editora Idéias & Letras, o senhor propõe uma nova leitura da espiritualidade beneditina. Como conciliar o “reza e trabalha”, ou seja, a vida contemplativa com o dia-a-dia do homem do século XXI que vive uma vida alucinada, marcada pela competição, pelo estresse e pelo predomínio dos valores materiais?
Grün — Para mim, a frase "Ora et labora" toca na questão de onde eu tiro a fonte para vencer neste mundo. Muitas pessoas sofrem hoje de estresse, são tensas, esgotadas e sem força interior. Eu sempre digo que estou sem força interior, que estou esgotado, somente quando busco a água da minha vida de uma fonte turva, turva pelo perfeccionismo e pela busca de se comparar com os outros a cada instante. Diante disso, a oração é como uma fonte cristalina: a fonte do Espírito Santo. Bebendo dessa água, eu posso trabalhar muito neste mundo, sem ficar esgotado.
Por outro lado, quando eu me fixo somente no trabalho, ele será demais para mim e me esvaziará. Nós precisamos de um contrapeso, e este é justamente a oração na qual nos acalmamos e na qual nos sentimos a nós mesmos, e encontramos o nosso equilíbrio, na qual estamos livres das expectativas dos nossos patrões e também do trabalho. É um espaço onde entramos em contato com nossa própria liberdade interior.
Acho entretanto que o trabalho é um enorme desafio espiritual. Para São Bento, é um sinal de uma boa espiritualidade o fato de podermos trabalhar bem, o fato de que tudo flui, que temos gosto e prazer em trabalhar.
Mas há também uma espiritualidade que é fuga da realidade e dos problemas deste mundo. Como eu resolvo os conflitos? Buscando paz interior, clareza interior, a partir de uma experiência de Deus. Disso depende se meu trabalho será uma bênção ou se será apenas um palco para eu viver as minhas ambições e as minhas carências insatisfeitas. Marcado por ambições e insatisfações, mesmo que eu trabalhe muito, meu trabalho nunca será uma bênção para os outros.