3-) Nos seus livros o senhor faz uma leitura interessante de alguns pontos da psicologia analítica de Jung. A que se deve a preferência por esse pensador?
Grün — Eu entrei no mosteiro em 1964. Em 68, junto com a revolução social dos estudantes, houve também uma rebelião no mosteiro. Nós já estávamos em desacordo com muita coisa sobre nossa vida no mosteiro. Todos aqueles ritos antigos não nos diziam mais nada. Aí o encontro com C. G. Jung nos ajudou a redescobrir o sentido dos rituais e dos símbolos. Ajudou especialmente a sentir que toda aquela tradição dos monges e dos padres da Igreja está cheia de sabedoria.
Jung, para mim, possui uma psicologia que resgata justamente o sentido para o campo religioso, para a força de cura dos rituais e para os efeitos curativos dos símbolos. Jung chama o ano litúrgico um sistema terapêutico. E isso foi para mim fascinante: as pessoas procuram, têm desejo hoje, por saúde e por cura, e o encontro com C. G. Jung me mostrou que nossa fé, nossa religião cristã, também nossa tradição católica têm um poder curativo, e isso eu procuro transmitir às pessoas.
4-) O senhor tem encontrado muitos pontos de contato entre a leitura psicológica da alma feita por Jung e a tradição espiritual cristã. Isso não levaria a uma “secularização” da mensagem cristã?
Grün — Não se trata de reduzir a espiritualidade à psicologia, mas o objetivo é o encontro com Deus, o encontro com Jesus Cristo, a transformação da pessoa por Jesus Cristo. A psicologia é apenas uma ajuda para eu apresentar toda a minha verdade interior a Deus.
Eu encontro muitos cristãos que levam somente o seu lado piedoso para dentro da sua oração, mas não seus lados sombrios. Então, a fé não os transforma. Eles tentam ter fé e viver a partir da sua fé, mas uma grande parte de sua vida continua intocada pela fé, intocada pela espiritualidade.
Para mim, a psicologia ajudou a oferecer toda a minha realidade: o meu corpo, a minha alma, os meus lados sombrios, as minhas agressões e as minhas paixões, para que o Espírito de Deus possa penetrar em tudo isso. Mas se trata sempre de uma cura por Deus, e não de uma redução da espiritualidade à psicologia.